sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A “direita” portuguesa sai do armário

Introdução

Recentemente, o vice-presidente do CDS, Adolfo Mesquita Nunes, teve o seu coming out numa entrevista ao jornal Expresso [1]. Nela declara a liberdade como o seu valor fundamental, que supera mesmo o da vida visto este residir em escolhas feitas – e sem escolhas livres, a vida não é verdadeira. Sem surpresa, foi aclamado da esquerda à direita pela sua coragem, num consenso que apela à remissão da sexualidade para a esfera privada e afirma que tal notícia não é digna de ser num país moderno. Este episódio é revelador do quadro moral disseminado não só na classe política portuguesa, mas também na população em geral.

A redução da sexualidade ao privado é feita sobretudo por um pressuposto de que o comportamento sexual não tem efeitos a jusante. Neste sentido, padece do mesmo problema do liberalismo económico quando reduz a actividade económica a interacções mutuamente vantajosas, via mercado ou contratos, em que terceiras partes são definidas como inexistentes. A acção é, então, feita num vácuo ideal ou material, quando em solitude; e se directamente dirigida a outra parte, esta é transportada para o mesmo vácuo – interagem sós; de resto, nada mais existe. Este enquadramento, nas ciências sociais, é habitualmente explicado pelo desejo de simplicidade na análise, que torna necessárias fortes restrições na aplicação de métodos dedutivos à realidade social. Abandonada a simplicidade, as restrições são supérfluas; abandonadas as restrições, a simplicidade revela-se fantasia. Em ambos os casos, é evidenciada a existência da terceira parte. E, de facto, o mesmo raciocínio aplica-se a toda a acção humana; isto é, nenhum acto é alguma vez privado – o vácuo não existe.

O movimento ecologista torna este ponto claro. É feito o apelo totalizante, e elevado a bem moral, a que em todo o consumo sejam considerados eventuais efeitos ambientais. Porém, esta elevação à esfera pública contrasta com a redução da sexualidade à esfera privada. E, curiosamente, é comum os defensores da primeira apoiarem a segunda, fruto de um vício do cientismo que diz só existir ou ser legítimo de discussão o que é mensurável. Logo, subjaz nesta visão também uma perspectiva particular da ciência e conhecimento, que se recolhe no vácuo perante a aparente complexidade dos problemas.

O consentimento

No campo sexual, os efeitos fazem-se sobretudo ao nível das mentalidades e, o relevante, pela alteração da dinâmica de interacção entre sexos. A justificação do acto homossexual, por exemplo, reduz-se à definição do consentimento enquanto bitola do que é aceitável, à constatação de que o acto é consentido pelos participantes e ao pressuposto já referido que não afecta outrem – o vácuo. Ora, embutido neste argumento está a legitimação da promiscuidade sexual, bem como uma miríade de perversões sexuais, como o incesto ou a necrofilia. Da mesma forma, a justificação da promiscuidade baseia-se nos mesmos três pontos já levantados, e, consequentemente, implica a aceitabilidade do acto homossexual. Quer se procure justificar primeiramente um ou outro; ou seja, qualquer o ponto de partida, todo o corpo da revolução sexual pode ser derivado. É precisamente isto que se constata quando se comparam cristãos que apoiam o casamento gay contra os que não o apoiam, em que os primeiros  aceitam em maior número a pornografia, o aborto, a promiscuidade, a infidelidade, etc. [2]. O erro surge nos pontos de justificação, nomeadamente o primeiro e o terceiro, embora, por sinal, seja o segundo o mais discutido. Então, o consentimento não é condição suficiente para a aceitabilidade de um acto e, novamente, o vácuo não existe.

Se parece ao leitor que, no parágrafo anterior, estou a argumentar contra um espantalho ou a cair numa bola de neve quando digo que aceitar a homossexualidade implica aceitar o incesto ou a necrofilia; penso que será fácil compreender por que motivo o consentimento não é suficiente. Responderá, correctamente, que existem outros factores a considerar. Mas, ao fazê-lo, admite haver pelo menos um meta-princípio moral adicional a ter em conta no julgamento de actividades sexuais, que suplanta o consentimento. Assim, a discussão é transportada para o nível dos meta-princípios, tornando o consentimento não suficiente. Por outras palavras, afirmar a aceitabilidade de um acto via consentimento não é nada mais que a pressupor, pois não se discutem os meta-princípios utilizados. A única excepção ocorre quando o único meta-princípio é o próprio consentimento, situação em que toda a actividade sexual é, à partida, aceitável, incluindo o incesto e a necrofilia – o que disse no parágrafo anterior. Aí, a suficiência estaria assegurada mas resultaria na liberalização de toda a actividade sexual excepto a violação. A pedofilia, por exemplo, seria inaceitável não pelo acto em si, mas porque a criança não consente, sendo efectivamente uma violação e tendo o estatuto da mesma. No momento em que a criança que não consente é removida de cena, manifestações de pedofilia tornam-se admissíveis: o consumo de material pornográfico já produzido, ficcional ou não; a simulação ou fantasia do acto, etc. Ao mesmo tempo, acções auto-destrutivas também seriam aprovadas à partida, como o notório bugchasing em que se procura activamente ser infectado com o VIH [3]. 

Poder-se-á, agora, dizer que todos os exemplos são respeitantes a casos extremos, que não se aplicam a casos normais e se manifestam numa minoria. Primeiro, a definição do que é extremo ou normal, por si só, pressupõe um enquadramento normativo para lá do consentimento enquanto meta-princípio, situando a discussão ao nível destes. Segundo, conforme referido há dois parágrafos, os três princípios permitem derivar toda a revolução sexual, independentemente do ponto de partida. Desta maneira, definem em que direcção a sociedade se move, visto não haver resistência a qualquer argumento sustentado por eles. O liberal moderno tem plena consciência disto: vê a razão do seu lado, mas a sociedade a mover-se lentamente devido a preconceitos e falta de costume. Convém, assim, dessensibilizar através de escândalos controlados, justificados sem resistência pelos três princípios, em cada qual se dá um pequeno passo rumo à liberalização sexual. A homossexualidade foi normalizada com recurso a este método; outras práticas, como o poliamor ou o incesto, estão numa fase embrionária. Repetindo, a aceitação do consentimento enquanto único meta-princípio implica a liberalização de toda a actividade sexual excepto a violação.

A inexistência do vácuo

Existe, no entanto, um problema adicional. O vácuo é condição estritamente necessária para se poder sequer falar de consentimento. Neste, conforme já aludido, cada indivíduo é visto como um objecto abstracto, inteiramente definido pelas suas preferências, que interage com os outros apenas via um conjunto restrito (e redutor) de instituições sociais consideradas relevantes para o ponto em análise. A acção em si é apenas relevante na medida em que satisfaz preferências, logo pode ser desconsiderada. O histórico de acções dos indivíduos, a existir, é apenas relevante na medida em que afecta as suas preferências, logo pode ser desconsiderado. Família, amigos, conhecidos, desconhecidos, cidades, países, identidades, contexto normativo, metafísico, religioso, económico ou político, a existirem, são apenas relevantes na medida em que satisfazem preferências, logo podem ser desconsiderados. É composto apenas pelas interacções definidas, os indivíduos que participam nelas, e as suas preferências. É o transporte do economês para a actividade sexual. Neste mundo, por definição, os únicos efeitos das acções são a satisfação das preferências dos participantes e o próprio conteúdo das mesmas é irrelevante, pelo que apenas podem ser avaliadas à luz desta satisfação; ou é assim, ou não nenhum julgamento será feito. Daqui à definição do consentimento enquanto condição suficiente para a aceitabilidade de algo é um pequeno passo. Reintroduzindo no vazio o que lhe foi negado, apura-se rapidamente haver terceiras partes, que conduz o meta-princípio do consentimento a um problema: a terceira parte é involuntariamente interessada mas não consente. Assumir o vácuo é, posto isto, negligenciá-lo e circularidade. Resta só afirmar que o interesse de terceiros não importa, caindo-se num egoísmo primário.

O primeiro efeito é ideológico. A natureza da actividade sexual condiciona a visão sobre instituições sociais. Quando práticas são racionalizadas e elevadas a identidade, constitui-se uma minoria. Inicialmente, por costume ou violação de normas, esta carecerá de aceitação social que limitará o número de instituições sociais que lhe são dirigidas, pondo-a à margem. A sua criação e manutenção exige sacrifícios, apenas viabilizados com um maior número que pertença ou apoie a minoria. Cabe, então, fazer um verdadeiro trabalho de proselitismo com vista à mudança da sociedade. Como já dito, qualquer o ponto de partida, os três princípios derivam toda a revolução sexual, de forma que são promovidos e é feito sobretudo um apelo à promiscuidade e hedonismo, e a deificação do prazer sexual. Outras estratégias são o exagero do seu número e influência, a ênfase na sua normalidade ou, no caso da prática homossexual, a promoção activa da mesma sob o pretexto de exploração sexual e libertação. Simultaneamente, mina-se a instituição social que mais conflitua com a sua prática, a família, através da criação da aberração do “casamento” gay, reduzindo o casamento a uma mera relação contratual em que duas partes se juntam para benefício mútuo. Aqui, importa menos a utilidade da instituição criada e mais a legitimação da homossexualidade – é um jogo de poder. Noutras, como o controlo do discurso [4] ou programas dedicados nas escolas [5] e média [6], a utilidade é evidente.

É frequentemente questionado como a prática homossexual ou o “casamento” gay podem minar a família. Que instituição é essa que não resiste ao que duas pessoas fazem no quarto? Esta pergunta, que assume o vácuo, já foi respondida implicitamente, porém é importante clarificar. A família pressupõe uma relação estável entre um homem e uma mulher com o fim de germinar e educar descendência. Se a aceitação da homossexualidade requere a promoção da promiscuidade, quer directa ou indirectamente, promovendo o consentimento enquanto condição suficiente para aceitabilidade, a promiscuidade, o hedonismo, o endeusamento do prazer sexual, a exploração sexual, a “libertação” como ideal, etc.; ataca o princípio de estabilidade da família e destrona-a enquanto instituição social padrão. Tal como se espera hoje que todos tenham pelo menos educação secundária completa, o casamento era igual marco. O mal não é feito a famílias já formadas mas às que haveriam de ser. É-o pela proliferação da promiscuidade entre solteiros, a banalização do casamento e do sexo, a desvalorização da estabilidade das relações ou a determinação do prazer sexual como fim da relação. E engana-se quem julga a coabitação verdadeira família. Novamente, a estabilidade é posta em causa [7], e a união do casal já nem é diminuída a mero contrato perante a comunidade, em lugar do pacto ou aliança, mas a acordo informal. Resume-se à eliminação do compromisso, em quantidade e qualidade – obrigações, filhos, esposos, família são empecilhos contra a liberdade individual. Tudo somado, diminui o número de casamentos e aumenta o de divórcios, com a consequência premente do tombo da natalidade rumo ao suicídio demográfico [8]. 

Singularizar a homossexualidade como a causa da corrupção da família é, todavia, um erro. Mas que isto não sirva de desculpa. Repito: qualquer o ponto de partida, os três princípios derivam toda a revolução sexual. A homossexualidade incorpora um bolo de causas e consequências mútuas, e aquilo que a justifica é também justificado por ela. O problema está nos princípios, que devem ser rejeitados e substituídos.

Em seguida, escusar o argumento com um “mas ninguém os impede…” é, outra vez, assumir o vácuo e ignorar tudo o que já foi dito. Mais importante que ser permitido o casamento é haver condições para que ele aconteça – contudo, a liberalização sexual garante o contrário. Que instituições sociais existem para que jovens se conheçam e qual a intersecção das mesmas com as que promovem a promiscuidade? Qual a perspectiva do jovem-tipo que as frequenta quanto à transitoriedade das relações? Que normas são veiculadas pela indústria de entretenimento ou educação? Tudo isto é neutro?  Como já referido, instituições sociais exigem sacrifícios na sua criação e manutenção, só justificados pelo número. Além disso, mesmo as ditas mais conservadoras, como a Igreja, são invadidas, por fora e por dentro, pela ideologia da liberalização sexual. Se dá alguma orientação em matéria sexual a crentes, é fortemente criticada por não religiosos [9]; mas as novas orientações são feitas à luz da corrupção do matrimónio e relações entre sexos dentro da própria Igreja [10]. A cultura não é neutra. 

Usar a falta de impedimento como desculpa é equivalente a defender a liberalização do horário de trabalho, porque posteriormente seria ainda permitida a configuração horária actual. Afinal, o patrão pode definir o número de horas que lhe aprouver; e o trabalhador também. Na margem, todos ganham, porque as horas de trabalho aproximam-se das preferidas. No entanto, isto é cair no vácuo. A extensão do horário de um único trabalhador poderia ter pouco ou nenhum efeito na indústria, mas o mesmo já não acontece com um grande número. Existe um conjunto de condicionalidades tecnológicas e operacionais específicas a cada indústria que as permitem ou não operar com tal diversidade de regimes horários e preferir uns a outros. Algumas indústrias utilizam o número de horas trabalhadas como sinal primordial para promoções, inflacionando-as; outras, para minimizar custos de treino, preferem ter menos trabalhadores que laborem muitas horas; por fim, para reduzir competição, outras optam por ter um elevado número de colaboradores dispostos a trabalhar um qualquer número de horas e, se possível, à peça – o cúmulo da precariedade. A tendência seria para o aumento das horas trabalhadas, a incerteza do horário, a insegurança do trabalho e a insegurança do rendimento; em prejuízo dos trabalhadores e, quiçá, de algumas indústrias – razão pela qual se definiram normas, formais ou informais, quanto ao horário de trabalho. No entanto, “mas ninguém os impede…”. É a crítica válida? Recorro a esta comparação precisamente por ser um tema querido a quem julgo que mais discordaria dos três parágrafos anteriores, e para enfatizar que a natureza do problema é a mesma. Uma ordem social libertária não é garantia de maior liberdade visto o indivíduo agir sempre vis-à-vis o todo de decisões e interacções dos outros, que o limita. O espaço de acção será diferente, mas não necessariamente maior. 

A tentação para cair no vácuo é um mau hábito difundido no pensamento europeu durante o Iluminismo, fruto do viés da época para o individualismo e a ideologia da libertação, que se consuma no liberalismo, em todas as suas acepções. Todavia, este modelo do ser humano é não só errado como desumano e perigoso. Redunda hoje numa desculpabilização e queda de padrões morais, numa visão onde se faz o bem só por se existir enquanto se ignora o suicídio civilizacional.

A imutabilidade

Há uma aparente saída de tudo isto, um argumento popular que não referi no dito proselitismo. Olhando para o sucesso dos movimentos por direitos raciais pelo mundo, as minorias sexuais optaram pela essencialização da orientação sexual – e.g. homossexuais nascem homossexuais e expressarão inevitavelmente a sua homossexualidade caso não sejam impedidos. Qualquer forma de marginalização ou discriminação seria perniciosa, visto ser feita com base em características não escolhidas. Note-se o fantasma do consentimento a reaparecer, sob a forma mais genérica do voluntarismo; isto é, só é legítimo moral ou politicamente o que resultar, em último caso, da vontade. Este princípio pode ser rejeitado à luz dos mesmos argumentos da secção anterior, além de outros que não importa mencionar pois vou assumi-lo apropriado.

O ponto da imutabilidade é especialmente curioso num movimento povoado por construtivistas sociais. De facto, falam-nos também de fluidez sexual e plasticidade erótica [11], particularmente no caso das mulheres. Focar-me-ei apenas no primeiro por ser o pertinente para o caso.

A fluidez sexual diz respeito à inconstância da atracção sexual ao longo da vida. Faz parte deste quadro considerar a orientação sexual como um espectro, de 100% heterossexual a 100% homossexual. Entre estas, definem-se categorias intermédias. Um estudo longitudinal realizado nos EUA [12] procura não só localizar jovens americanos nascidos por volta de 1980 neste espectro, como avaliar a sua evolução. Em primeiro lugar, descobre-se que, na amostra e quando os indivíduos tinham já cerca de 28 anos (Wave 4), 94% dos homens e 80% das mulheres se identificam como 100% heterossexuais. Isto é, 6% dos homens e 20% das mulheres admitem uma identidade pelo menos parcialmente homossexual; embora apenas 1.7% e 0.9% se considere 100% homossexual – menos de 30% dos homens e 5% das mulheres com tendências homossexuais são-no exclusivamente. Esta clivagem entre sexos, com menor prevalência nos extremos do espectro para as mulheres, é indicadora da maior fluidez sexual feminina. Entre os 22 anos (Wave 3) e os 28 anos (Wave 4) são, por um lado, as mulheres, e por outro, o grupo não 100% heterossexual que mais transitam de categorias. E é precisamente nos extremos que há mais estabilidade, com grande destaque para os heterossexuais: 97.1% 88.1% para heterossexuais, e 70.8% e 66.9% para homossexuais. Repare-se, ainda, que, em média, 29.2% e 33.1% dos homossexuais passam a exibir características de heterossexualidade neste período; e compare-se com os valores de 2.9% e 11.9% para heterossexuais.



Um outro estudo [13] sobre a mesma base de dados, foca na estabilidade da atracção reportada homossexual ou bissexual entre as quatro etapas do estudo (Waves 1-4). As idades médias, respectivamente, são 16 (W1), 17 (W2), e os já mencionados 22 (W3) e 28 (W4), de modo que é possível aferir a estabilidade da atracção na transição da adolescência para a idade adulta. Dos que reportam sentir-se atraídos apenas por pessoas do mesmo sexo com 16 anos, só 9.8% diz o mesmo aos 17; e dos que o reportam aos 17, só 12.4% o repetem aos 22. Apenas na transição entre os 22 e os 28 anos, a referida no parágrafo anterior, é a estabilidade significativa, rondando os 73%, valor próximo do da estabilidade da identidade 100% homossexual para homens. Entre quem reporta atracção pelos dois sexos, a estabilidade também é baixa, não ultrapassando os 34% – 16.9% dos 16 aos 17; 33.9% dos 17 aos 22; 28.3% dos 22 aos 28. A comparação de sexos revela um padrão congruente e indicativo da maior fluidez sexual feminina. Quanto à atracção exclusiva pelo mesmo sexo, os homens mostram maior estabilidade, que ascende aos 91% entre os 22 e os 28 anos, mas não passa dos 20% em idades anteriores. Para a atracção pelos dois sexos, a estabilidade é maior para elas, embora nunca ultrapassando os 45%.



Em suma, estes dois estudos demonstram que a imutabilidade está longe de se verificar nesta amostra, tanto para a identidade como para a atracção sexual, sobretudo para as mulheres e antes da idade adulta. E, mesmo atingida a idade adulta, os indivíduos 100% heterossexuais exibem uma estabilidade significativamente superior à dos restantes. De facto, a fluidez sexual parece ser um fenómeno quase ausente em homens que se identifiquem alguma vez como 100% heterossexuais.

Estes números não são exclusivos a esta base de dados. Uma meta-análise [14], que inclui outras para além da anterior, somente para população adulta não 100% heterossexual, sintetiza o mesmo padrão – mulheres são sexualmente mais fluídas e a imutabilidade está longe de ser um dado. Note-se, por último, as segunda e terceira colunas que indicam a percentagem de indivíduos que reportam ter alterado o padrão de atracção sexual e a percentagem que alterou para exclusivamente heterossexual, respectivamente.



Para mais, um estudo de gémeos adultos suecos, o maior até à data e representativo da população, estima a heritabilidade do comportamento homossexual em 34-39% para homens e 16-17% para mulheres [15], consistente com o que já foi dito. É preciso cuidado na interpretação destes valores. Não há nenhum traço que se possa dizer 100% genético ou 100% ambiental. Esta dicotomia faz pouco sentido, porque todos são o resultado da expressão de genes no meio. Na falta de algum dos factores, nenhuma característica se manifesta. A heritabilidade diz, sim, respeito ao rácio da variação genética observada com a variação das características observadas – aqui, o número de parceiros sexuais do mesmo sexo. Valores de heritabilidade obtidos por estudos de gémeos devem ser vistos como um máximo. Para comparação, sabe-se que a heritabilidade média para os fenótipos já mensurados é de 49% [16], geralmente menor para características psicológicas e maior para as físicas. Além disso, a heritabilidade da inteligência varia de 20% na infância até 80% em idade adulta avançada [17], e é pelo menos 40% para traços de personalidade e visões políticas [18][19]. Em conclusão, tudo indica que a heritabilidade do comportamento homossexual é inferior à de fenótipos como a altura, a inteligência, traços de personalidade e visões políticas; e entre o padrão de características humanas é um traço com heritabilidade abaixo da média, mesmo considerando apenas as psicológicas. 

É, ainda, relevante referir três pontos normalmente levantados neste tópico. Uma explicação popular para a homossexualidade é a acção de hormonas pré-natais. Assim, tal como acontece no caso da síndrome de Down, apesar de heritabilidade baixa, haveria um erro base que provocaria a homossexualidade. A evidência para isto é contraditória, incompleta e a explicar a homossexualidade fá-lo principalmente para as mulheres [20]. Além disso, modelos de machine learning estão hoje em voga e um promete identificar homossexuais com um grau de sucesso até 80% a partir de uma fotografia [21]. No entanto, esta capacidade parece partir sobretudo da mistura de várias características não fisionómicas [22], além de que seres humanos conseguem um grau de sucesso até 60% nas mesmas condições. Por último, uma possível explicação para a atracção, identidade e comportamento homossexual seria manifestarem sensation seeking elevada. Esta é um traço de personalidade associado à procura de experiências variadas, novas e intensas. Está associada, por exemplo, ao consumo de drogas, a comportamentos sexuais de risco ou à participação em jogos de azar [23]. De facto, o consumo de drogas parece ser mais elevado, ceteris paribus, entre jovens homossexuais e, especialmente, em bissexuais [24]. Numa escala semelhante apenas aplicada à dimensão sexual são, sem surpresas, os bissexuais, especialmente mulheres, que revelam mais diferenças em sensation seeking, mas não homossexuais [25]. Estes resultados devem ser interpretados à luz dos números acima em que 70% dos homens e 95% das mulheres com tendências homossexuais não o são exclusivamente.

Falar de imutabilidade apresenta, portanto, inúmeros problemas. Não só não há uma estabilidade evidente na atracção ou identificação homossexual, como factores estritamente biológicos parecem incapazes de as explicar. O consenso da American Psychological Association (APA) resume-se a: 
“There is no consensus among scientists about the exact reasons that an individual develops a heterosexual, bisexual, gay or lesbian orientation. Although much research has examined the possible genetic, hormonal, developmental, social and cultural influences on sexual orientation, no findings have emerged that permit scientists to conclude that sexual orientation is determined by any particular factor or factors. Many think that nature and nurture both play complex roles; most people experience little or no sense of choice about their sexual orientation.” [26]. 
Este excerto é consistente com tudo o que escrevi nesta secção, inclusive a última frase. Existe um sentimento pessoal de inevitabilidade quanto à orientação sexual, no sentido em que esta não é escolhida como um sabor de gelado ou uma marca de automóveis. Porém, saber que uma panóplia de factores ambientais a explicam aponta para a sua maleabilidade, que torna mais indispensável um pensamento sério sobre as questões morais que levanta. O pouco que se conclui desta secção é a incomparabilidade da orientação sexual com outras características como a raça, entendida no seu sentido lato, ou o sexo – esses, sim, imutáveis.

Conclusão

O objectivo deste artigo foi demonstrar a nulidade do argumento do consentimento enquanto justificatório da identidade e actividade homossexuais, e colocar um ponto de interrogação sobre a questão da imutabilidade da atracção e identidade homossexuais/bissexuais. Outros argumentos poderiam ser dados, nomeadamente de pendor teleológico, mas abstive-me de o fazer pois são de mais difícil compreensão para o Homem moderno.

Com base no artigo, estratégias no debate com apoiantes da liberalização sexual, nomeadamente em relação a minorias sexuais, deverão passar por:
  • Rejeitar liminarmente qualquer uso do argumento do consentimento. Tal passa, em primeiro lugar, por o levar ao absurdo, forçando a outra parte a admitir utilizar outros princípios. A partir daí, discuti-los com uma argumentação positiva a favor da restrição sexual (não apresentada aqui).
  • Enfatizar que o argumento do consentimento pressupõe um modelo irrealista do ser humano que assume a não existência ou validade dos problemas e questões que se pretendem discutir.
  • Reconhecer que operar no vácuo leva-nos sistematicamente a cometer a falácia da composição – ser verdade para o todo o que o é para a parte. O exemplo da regulação do horário laboral é bom, pois nele a esquerda recorre ao mesmo tipo de raciocínio. Não é o único; a economia está lotada deles – para os mais simples, ver os conceitos de paradox of thrift, problema do free rider, tragedy of the commons, bens públicos, externalidades, etc. e trabalhar a partir daí.
    • O argumento apresentado no 3º parágrafo da secção “Inexistência do vácuo” , possivelmente o mais importante do artigo, é um exemplo do problema do free rider
  • Recusar que afirmem a homossexualidade ou bissexualidade como algo imutável. Dever-se-á neste ponto referir a instabilidade da atracção e identidade sexuais dos dois no tempo, bem como a falta de evidência científica que a biologia explique a variabilidade da orientação sexual.
    • Caso necessário, este site inclui inúmeros testemunhos de pessoas que sentiram as suas preferências sexuais ser alteradas. Diz respeito, em particular, ao papel da pornografia em moldá-las, mas é útil enquanto repositório: https://www.yourbrainonporn.com/ask-us.
Todos estes pontos se reduzem ao conselho de não aceitar premissas da esquerda. Ver a “direita” portuguesa a debater é confrangedor, porque as aceita todas, principalmente no debate sobre a liberalização sexual, o que creio ser por um misto de ignorância, credulidade e alguns serem, de facto, de esquerda. Fazê-lo é ceder a escolha do terreno de batalha e ser levado pelos ventos de “mudança” que sopram no mundo ocidental.

Referências

[3] Vídeo ilustrativo do que seria aceitável até aos ~8 minutos: POZitivity
[5] A título de exemplo: Apoios e campanhas – Rede ex aequo
[6] A título de exemplo: Casa do Cais – RTP
[9] A título de exemplo, ler os comentários destes artigos, ou mesmo algumas reacções na imprensa.
[10] Inquérito “Voice of the People” (2014) da Univision em 12 países
[11] Baumeister, R. F. (2000). Gender differences in erotic plasticity: the female sex drive as socially flexible and responsive. Psychological bulletin, 126(3), 347.
[12] Savin-Williams, R. C., Joyner, K., & Rieger, G. (2012). Prevalence and stability of self-reported sexual orientation identity during young adulthood. Archives of sexual behavior, 41(1), 103-110.
[13] Hu, Y., Xu, Y., & Tornello, S. L. (2016). Stability of self-reported same-sex and both-sex attraction from adolescence to young adulthood. Archives of sexual behavior, 45(3), 651-659.
[14] Diamond, L. M., & Rosky, C. J. (2016). Scrutinizing immutability: Research on sexual orientation and US legal advocacy for sexual minorities. The Journal of Sex Research, 53(4-5), 363-391.
[15] Långström, N., Rahman, Q., Carlström, E., & Lichtenstein, P. (2010). Genetic and environmental effects on same-sex sexual behavior: A population study of twins in Sweden. Archives of sexual behavior, 39(1), 75-80.
[16] Polderman, T. J., Benyamin, B., De Leeuw, C. A., Sullivan, P. F., Van Bochoven, A., Visscher, P. M., & Posthuma, D. (2015). Meta-analysis of the heritability of human traits based on fifty years of twin studies. Nature genetics, 47(7), 702-709.
[17] Plomin, R., & Deary, I. J. (2015). Genetics and intelligence differences: five special findings. Molecular psychiatry, 20(1), 98.
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[21] Wang, Y., & Kosinski, M. (2018). Deep neural networks are more accurate than humans at detecting sexual orientation from facial images. Journal of personality and social psychology, 114(2), 246.
[23] Roberti, J. W. (2004). A review of behavioral and biological correlates of sensation seeking. Journal of research in personality, 38(3), 256-279.
[25] Stief, M. C., Rieger, G., & Savin-Williams, R. C. (2014). Bisexuality is associated with elevated sexual sensation seeking, sexual curiosity, and sexual excitability. Personality and Individual Differences, 66, 193-198.




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